Arquivo de Fevereiro, 2009

cordaohumano

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Eu sei que andamos todos cansados e que estamos numa espécie de período de “refluxo” no que respeita à defesa da carreira docente e da escola pública. No entanto, penso que esta iniciativa promovida pela Fenprof é original e pode causar grande impacto mediático, se tiver uma boa participação. Os detalhes logísticos deverão ser revelados em breve pela central sindical. 

Lá estarei.

Cartaz em formato pdf para divulgação, aqui

Homenagem a Courbet

Posted: 24/02/2009 in Censura, Indignação

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Os tempos que vivemos não cessam de espantar!

A PSP de Braga apreendeu uma série de livros cuja capa considerou “pornográfica”. A capa em questão continha uma reprodução do quadro de Gustave Courbet “A Origem do Mundo”, pintado em 1866. Este incidente é uma lição para aqueles que tomam a liberdade como garantida e que acham impossível que um retrocesso civilizacional possa ocorrer neste Portugal europeu do séc.XXI.

Alguém explique aos senhores agentes da PSP o conceito de pornografia, por favor…

Termino com uma elucidativa afirmação do próprio Courbet, tirada do óptimo blogue Pimenta Negra;

“Tenho 50 anos e sempre vivi em liberdade; deixem-me terminar a minha vida livre; quando morrer, deixem que se diga de mim: ‘Ele não pertencia a qualquer escola, a qualquer igreja, a qualquer instituição, a qualquer academia e muito menos a qualquer regime que não fosse o regime da liberdade.'”
Gustave Courbet

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O episódio do desfile de Carnaval de Paredes de Coura é surrealista e levanta uma série de questões, mais trágicas do que cómicas…

Os pais apenas se agitam publicamente quando uma actividade lúdica é cancelada por falta de tempo? Então e os gravíssimos problemas que deveriam merecer a intervenção e colaboração efectiva dos pais?

Os pais querem assim tanto um desfile de Carnaval? Sim senhor… ofereceram os pais indignados a sua ajuda para viabilizar essa actividade? Não me consta!

A DREN ordena à escola que realize o desfile, que é manifestamente uma actividade extra-curricular??? Então e a autonomia das escolas é letra morta para consumo de quem quiser acreditar?? 

É a primeira vez que ouço falar num desfile de Carnaval OBRIGATÓRIO!! Surrealismo puro mas que indicia mentalidades perigosas por parte da equipa doentia que está à frente deste Ministério da Educação.

Mais informação aqui , aqui, aqui e também aqui

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Sobre um certo tipo de relacionamento que alguns pais têm com a escola dos filhos, é interessante ler este texto de Miguel de Araújo Camelo, postado no blog “O Pão e a Razão”.

A Culpabilidade das Vítimas

“Professores utilizam alunos na luta política” era o título sugestivo do comunicado da CONFAP que recebi hoje. Parecia prometedor mas… afinal referia-se apenas à decisão tomada por 143 professores e educadores de Paredes de Coura de cancelar a “quase totalidade das actividades previstas para este ano lectivo que envolvam a comunidade ou que impliquem qualquer deslocação”, e à indignada reacção da Associação de Pais do agrupamento. 

Os professores de Paredes de Coura causaram tamanha reacção, não pelo seu autruismo quando iniciaram estes projectos, mas sim quando decidiram acabar com a injustiça a que eles próprios se tinham sujeitado. Estes homens e mulheres decidiram terminar com horas de trabalho não reconhecido, com o trabalho extraordinário necessário para compensar o tempo destas actividades, com despesas não reembolsadas, com uma função social que desempenham gratuitamente porque não há meios nas escolas. Estes homens e mulheres decidiram romper com aquilo a que se haviam comprometido nos últimos anos e que consistia em “algo a troco de nada”. Passaram a exigir o seu direito de ver reconhecido (e pago) o trabalho e esforço que desenvolvem e, só por isso, chamaram a atenção sobre si.

Mas ao invés de chamarem a atenção dos justos, provocaram antes a indignação das almas que eles próprios ajudaram a produzir. Estes são os pais que a sociedade do “algo em troca de nada” produz. Uma sociedade que reivindica direitos adquiridos no berço sem se preocupar com quem paga; que proclama a necessidade de obter e ignora a habilidade de criar; que acredita que o consumo é que gera produção ou que a desgraça é a maior virtude e que o sucesso o pior defeito. 

Uma sociedade e uns pais que, depois de acarinhados “à borla” e à custa do trabalho de outros, se viram para os (supostos) benfeitores em vez de denunciarem as injustiças, é uma sociedade e são uns pais que não têm futuro. Os seus filhos exigirão ainda mais e estarão dispostos a contribuir ainda menos.

Este tipo de altruísmo instala a injustiça, normaliza o “algo em troca de nada” e transforma o “bem comum” em prejuizos individuais. Promove o direito sem dever, o consumo sem produção, a riqueza sem esforço. Promove uma sociedade canibal que maltrata e enxovalha os altruístas quando estes nada mais têm para dar, porque a dádiva se torna a norma, e a sua falta implica infracção.

Numa sociedade justa, o “bem comum” é – e tem de ser – a soma de todos os bens individuais, um bem comum perfeitamente indentificável e objectivamente quantificável. Uma sociedade justa terá de retribuir e reconheçer os que para ela contribuem e a estes prestará homenagem. O bem individual de cada um será a recompensa pela sua contribuição para a sociedade que necessita do que cada individuo lhe disponibiliza. Essa será a sociedade livre e justa, em que todos beneficiam do trabalho de cada um, e em que ninguém vive para ninguém nem às custas de ninguém. O contrário não só promove a miséria, como a termo transformará os mais capazes em miseráveis, porquanto esse será o código moral pelo qual serão recompensados.

A Razão, a mente e inteligência são ferramentas poderosas que garantem ao Homem a sua sobrevivência. As escolas e os Professores são recursos valiosíssimos de qualquer sociedade. Quando eles próprios se valorizarem dessa forma, e se fizerem recompensar nessa medida, a injustiça deixará de ser possível.

Na injustiça intervêem os “predadores” e as “vítimas”. Os primeiros defendem-na no seu próprio interesse. Os segundos possibilitam-na ao abrigo de um código moral contra natura, que lhes é apregoado pelos primeiros. Eduquem-se as mentes e não haverá vítimas. Acabem-se com as vítimas e não haverá injustiça. Os “predadores” não terão outro remédio senão virar-se uns contra os outros.”

farsa

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Mais sobre o tema neste blog: Aqui e aqui

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Imagino que os casos (isolados) que ultimamente vieram a público sejam apenas uma pequena parcela dos episódios de violência que ocorrem dentro ou nas imediações da escola. E não falo apenas dos casos onde é exercida violência física… nem apenas de violência exercida entre alunos. Ah, e não esquecer a maior de todas as violências… a impunidade.

Para quem ainda não leu, deixo aqui um texto de Helena Matos.

“Medo e cobardia”

“É este espírito de medo, falta de princípios e cobardia que se incute diariamente nas escolas aos nossos filhos? É.”Uma menina de 10 anos teve que receber tratamento depois de ter sido espancada. Agressão foi praticada na própria escola [Escola Básica Integrada do Monte da Caparica, em Almada] e os agressores apontados pela garota são quatro alunos, seus colegas. A GNR investiga o caso.” Jornal de Notícias, 8 de Fevereiro

“A PSP vai comunicar ao Ministério Público a agressão sofrida, esta terça-feira, por um professor de Inglês da Escola Básica 2-3 Dr. Francisco Sanches, de Braga, que ficou a sangrar abundantemente depois de esmurrado pelo tio de um aluno, disse à Lusa fonte da corporação.” Portugal Diário, 11 de Fevereiro

Estas são duas notícias recentes de agressões em escolas portuguesas. Em qualquer escola do mundo, pública ou privada, pode acontecer uma agressão. Mas o que está a acontecer em Portugal não é nada disso. À semelhança dos desastres de avião que frequentemente resultam não dum grande problema mas sim dum somatório de falhas que isoladamente não têm grande importância mas em conjunto desencadeiam a catástrofe, também uma leitura deste tipo de notícias permite concluir que algo de profundamente anormal está a acontecer nas escolas públicas, em Portugal.
Por exemplo, no caso da agressão à menina na Escola Básica Integrada do Monte da Caparica, em Almada, verifica-se que a aluna foi agredida dentro da escola, durante uma hora. Nem funcionários nem professores deram por isso. Uma hora é muito tempo. E cinco crianças, isto a contarmos apenas a agredida e os agressores, envolvidas numa cena destas fazem uma certa algazarra. Mas admitamos que tal pode acontecer. Em seguida a criança agredida saiu da escola acompanhada por dois colegas, o que quer dizer que, pelo menos, entre os alunos já corria informação sobre a agressão. A menina tinha a roupa cheia de lama, sangue na boca e a cara esfolada. Mas saiu da escola, durante o período escolar, e repito: durante o período escolar, sem que qualquer funcionário ou professor considerasse que devia intervir. Ou teremos de admitir que uma criança neste estado consegue atravessar as instalações escolares e passar pela portaria sem que professores ou funcionários a vejam? É difícil entender que tal aconteça, mas admitamos que estava muito nevoeiro ou que estavam todos a contemplar o céu e logo também isto pode ser possível. Chegada a casa, a criança foi levada ao Hospital Garcia de Orta, cujo relatório citado pelo Jornal de Notícias diz o seguinte: “Criança de 10 anos, sexo feminino, vítima de agressão física por parte de quatro colegas da escola, todos com 11 anos. Hematoma facial esquerdo, dor abdominal e dorsolombar difusa, escoriações em ambas as palmas das mãos e lombares”. Face a este relatório, a “GNR investiga o caso”. Cabe agora perguntar o que faz a GNR no meio disto? Em relação aos agressores que nem sequer têm 12 anos não podem fazer nada. E sobretudo o que sucedeu naquela escola e está a suceder um pouco por todo o país é uma sequência de desresponsabilização por parte de professores e funcionários: não ver, não intervir, olhar para o outro lado tornaram-se a estratégia de sobrevivência numa escola sem autoridade nem prestígio. Na evidência dos hematomas ou das filmagens com telemóvel abre-se então um inquérito e apresentam-se queixas na polícia, como quem lava as mãos.
Passando para o caso da agressão a um professor numa escola de Braga, nota-se exactamente o mesmo receio de intervir: um homem entra numa escola ameaçando bater num determinado professor. Não consegue e espera-o à saída da escola, tendo concretizado a agressão à saída, perante várias testemunhas. Não conheço qualquer outro local de trabalho, além das escolas portuguesas, onde uma pessoa ameaçada saia do seu local de trabalho sem que alguns colegas o acompanhem.
É este espírito de medo, rebaixamento, falta de princípios e cobardia que se incute diariamente nas escolas aos nossos filhos? É. O vazio de autoridade nas escolas levou a isto: chama-se a polícia e abrem-se processos judiciais para tentar intervir em situações que um conselho directivo devia ter meios para resolver. Para cúmulo, deste ambiente perverso que levou à criminalização do quotidiano prometem-se agora câmaras de videovigilância para 1200 escolas. Alega o ministério que o Plano Tecnológico da Educação vai dotar as escolas de computadores, quadros interactivos e videoprojectores por cuja segurança estas câmaras irão zelar. Apanhando o comboio, muitas escolas esperam também que as câmaras dissuadam alguns actos de violência. Mas, como todas as semanas notícias como estas confirmam, o problema não é não ver. É não querer ver. Ou ter medo de ver. Quantos adultos viram aquela criança ser agredida na Escola Básica Integrada do Monte da Caparica? Nenhum? E nenhum a viu sair da escola com lama e sangue na cara? Ninguém viu o agressor à espera do professor de Inglês à porta da Escola Básica 2-3 Dr. Francisco Sanches, de Braga? O que fez falta nestas escolas não foram câmaras de videovigilância. O que fez falta foi não ter medo de assumir responsabilidades.”

in Público, 12/02/2009