Arquivo de Outubro, 2010

Este texto veio parar à minha caixa de correio, numa daquelas mensagens redireccionadas cuja proveniência original não é identificada. Achei piada ao conceito e, com as devidas adaptações na linguagem, resolvi compor o aspecto gráfico de modo a obter qualquer coisa que fosse digna da afixação numa sala de professores, por exemplo…

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Como já tinha escrito, não me apetece fazer greve no dia 24 de Novembro só para engrossar a contabilidade estatística das organizações sindicais que, pelas razões de já referi, não me merecem especial crédito – e que me desculpem as pessoas de bem que estão envolvidas nos sindicatos e mais os ingénuos que acham que podem mudá-los por “dentro”. Obviamente, também não me apetece ficar quieto e acredito que muita gente também não quererá…

Então que fazer? Mostrar descontentamento, de forma autónoma mas concertada e em grupo, pode ser um bom caminho. Não tem de haver manifestações, no sentido clássico do termo, para que haja protesto. Era bom que conseguíssemos mostrar que nós, cidadãos, nos conseguimos organizar para produzir algo, sem depender de uma estrutura implantada e politicamente comprometida. Podemos todos trabalhar para o mesmo, ainda que de forma diferente e isso é bom e saudável.

São precisas ideias. É preciso pensar criativamente – aquela coisa que dá trabalho, sabem? – Sabem com certeza e eu também faço o meu mea culpa porque muitas vezes tenho mais que fazer, como todos vós. Proponho assim que se faça um “brainstorming” para reunir e debater ideias para realizar acções que mostrem o nosso descontentamento e a nossa determinação. De acordo com o conceito de brainstorming,a finalidade é reunir ideias, expô-las e debatê-las. Podem não fazer muito sentido numa primeira leitura, mas o que se pretende é que a criatividade flua e que seja possível associar ideias e refiná-las numa fase posterior. A caixa de comentários está à vossa disposição… Entretanto, vou actualizando este post com ideias que me venham surgindo.

Um símbolo apropriado?

Numa altura em que se antevê que a classe média – o que resta dela – irá receber um golpe de tal maneira brutal em 2011 que é de prever a sua extinção a breve prazo, a ideia de Portugal como um estado-nação gerido pela sociedade civil está em perigo. Um dos símbolos da nação é a bandeira. Se o Scollari nos levou a por a nossa bandeira hasteada em tudo o que era lado, porque não, nesta altura crítica, hastear a bandeira nas varandas ou outro local que  seja considerado apropriado, mas com o acrescento de uma faixa negra, em sinal de luto? Basta cortar uma faixa, enrolar e prender com alfinete…

Vamos a votos! (Calma, ainda não são as legislativas antecipadas… é só aqui para o PG)

Uma sondagem, meio a brincar, meio a sério. Podem assinalar mais do que uma ideia mas só podem, claro está, votar uma vez.

©ProtestoGráfico

Alguém de entre vós já viu o governo de Sócrates ficar REALMENTE incomodado com alguma greve ou mega-manifestação que tenha ocorrido nos últimos seis anos, a ponto de mudar algo, por pequeno que seja nas suas políticas (tirando a última greve dos camionistas)? Alguma reivindicação séria foi REALMENTE atendida, fruto das manifestações, greves ou habilidade negocial dos sindicatos (os que ainda mexem, porque alguns só aparecem quando surge a oportunidade de cavalgar uma onda iminente de descontentamento)?? Não perguntem aos sindicatos. Perguntem a vocês próprios! Numa situação que é grave, está convocada mais uma greve, desta vez “geral”, que fará as delícias sindicalistas no reforço da auto-ilusão de que eles próprios ainda servem para alguma coisa, e mais; o reforço da auto-ilusão de que muita gente ainda não tenha dado por isso…

O resto é festa… é catarse. O que nós precisamos é de acção bem dirigida, com a atitude correcta, ao serviço daquilo que consideramos justo e não ao serviço de grupos, sindicais ou corporativos, que muito bem tentam manipular as massas em seu benefício (até pareço um anarquista a falar mas foi sem intenção…). Catarse colectiva, festa e comício já tivemos, muito obrigado! E a bem dizer, uma greve como as outras, nesta altura de penúria, servirá para alguma coisa?

Credibilidade é o bem mais precioso e escasso no panorama político nacional, neste momento. O governo não tem e os sindicatos também não. E entre fazer qualquer coisa e não fazer nada, engrossamos as estatísticas favoravelmente a um ou ao outro. Quanto à greve de 24 de Novembro só digo isto: talvez faça, mas a 23 ou a 25… a 24, duvido!

© ProtestoGráfico

Permitam-me os meus poucos (mas presumo, bons) leitores, este discurso algo pessoal:

Há alguns anos a esta parte tenho experimentado um sentimento de revolta pelo modo como a governação do país tem sido conduzida e o seu património delapidado e sugado por uma elite que só o é por força de circunstâncias políticas favoráveis, raramente por mérito ou dedicação à causa pública. Estou entre aqueles que usando apenas de comum bom senso percebiam que o desenvolvimento da situação social e económica nos últimos 15 anos (para dizer no mínimo) em Portugal, tendia para o desfecho que agora começamos a vislumbrar. Os motivos pelos quais nos deixámos arrastar até aqui penso que se devem à nossa mentalidade intrínseca de pouca exigência, laxismo e preguiça. Nós, portugueses, até conseguimos ser exigentes, diligentes e afoitos; mas mais com os outros do que connosco próprios. Por muito maus que sejam os nossos governantes eles são o nosso espelho enquanto povo no sentido em que, como colectivo, fomos nós que os elegemos. O leitor poderá dizer que não votou neste ou naquele e portanto, não se sente responsabilizado… O problema é que a sociedade se constrói pelo todo e esse todo é sempre maior do que a soma das partes. As visões de cada um, se bem que saudavelmente divergentes, devem apontar para o bem comum. Isso pura e simplesmente não acontece na sociedade portuguesa actual.

Nesse aspecto, dificilmente poderemos ser considerados como uma nação. Se o somos é apenas de modo formal, porque não somos outra coisa diferente. Como temos de ser qualquer coisa, então somos portugueses. Tirando as ligações de afinidades e amizades e as ligações familiares que todos preservamos, pouco nos une para além da língua e do espaço territorial que ocupamos. Não é pouco mas também não chega. Não existe qualquer desígnio nacional sério ou credível. Somos um conjunto de indivíduos a tentar fazer pela vida…

Ao sentimento de revolta de que falei no início do texto, tentei responder com desenhos, cartazes, textos e outros activismos mais concretos e menos cibernautas, no sentido de agastar o que pensava estar incorrecto, tentando dar o meu modesto contributo para inflectir tudo o que pudesse ser inflectido e mudado para melhor ou, pelo menos, tentar evitar uma mudança para pior.

Estes últimos tempos, em que manifestamente a qualidade das decisões políticas no campo económico, social, educativo, enfim, em todos os campos que realmente interessam, mantiveram uma qualidade sofrível, levam-me a encarar a situação de um outro modo. Já não me preocupo tanto. Porquê? Porque pura e simplesmente já não vale a pena. Isto não é vontade de desistir e baixar os braços, é apenas a constatação, para mim claríssima, de que as coisas vão ter ainda que piorar bastante antes de (espero) começarem a melhorar. Inflectir suavemente é aparentemente impossível!  Mudar pacificamente e voluntariamente as mentalidades? Previlégios adquiridos, oligarquias e corporações? Não me parece.

O tecido social tende neste momento para o colapso, pela mão de uma economia, uma justiça e um sistema de ensino que não funcionam devidamente. Pergunto-me se, a bem do futuro, não será disso que precisamos no presente – um colapso do velho para que algo de novo tenha espaço para surgir.

Para usar uma metáfora informática, Portugal parece um daqueles computadores cheios de vírus e de lixo que já não respondem, independentemente das teclas em que carregarmos. A única solução é fazermos o “reset”, reformatar o disco, desligar a ficha e depois tentar ligá-lo outra vez.

Só espero que seja razoavelmente pacífico… Afinal, seremos ou não um povo de “brandos costumes”?

©ProtestoGráfico

Austeridade “não toca na gordura do Estado e nos interesses da oligarquia”

Entrevista a Henrique Neto, no “Público” de hoje, plena de lucidez.

Alguns extractos:

“Pelo que se ficou a saber, certo é apenas que os portugueses pagarão, em 2011 e nos anos seguintes, os erros, a imprevidência e a demagogia acumulada em cinco anos de mau Governo. É por isso que, nestas circunstâncias, falar da coragem do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, como alguns têm feito, é um insulto de mau gosto a todos os portugueses que trabalham, pagam os seus impostos e vêem defraudadas as suas expectativas de uma vida melhor. As medidas propostas, sendo inevitáveis, dada a dimensão da dívida e a desconfiança criada pelo Governo junto dos credores internacionais, não tocam no essencial da gordura do aparelho do Estado e nos interesses da oligarquia dirigente. Mas o pior é que estas medidas, pela sua própria natureza, não são sustentáveis no futuro e não é expectável que, com este Governo, se consiga o crescimento sustentado da economia.”

“A consolidação das contas públicas é uma condição necessária mas não suficiente. Apenas o crescimento sustentado da economia abrirá novas perspectivas aos portugueses. Mas, neste domínio, José Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente.
Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.”

Entrevista completa aqui: