Uma solução para Portugal…

Posted: 07/10/2010 in Cidadania, Opinião, Políticas

© ProtestoGráfico

Permitam-me os meus poucos (mas presumo, bons) leitores, este discurso algo pessoal:

Há alguns anos a esta parte tenho experimentado um sentimento de revolta pelo modo como a governação do país tem sido conduzida e o seu património delapidado e sugado por uma elite que só o é por força de circunstâncias políticas favoráveis, raramente por mérito ou dedicação à causa pública. Estou entre aqueles que usando apenas de comum bom senso percebiam que o desenvolvimento da situação social e económica nos últimos 15 anos (para dizer no mínimo) em Portugal, tendia para o desfecho que agora começamos a vislumbrar. Os motivos pelos quais nos deixámos arrastar até aqui penso que se devem à nossa mentalidade intrínseca de pouca exigência, laxismo e preguiça. Nós, portugueses, até conseguimos ser exigentes, diligentes e afoitos; mas mais com os outros do que connosco próprios. Por muito maus que sejam os nossos governantes eles são o nosso espelho enquanto povo no sentido em que, como colectivo, fomos nós que os elegemos. O leitor poderá dizer que não votou neste ou naquele e portanto, não se sente responsabilizado… O problema é que a sociedade se constrói pelo todo e esse todo é sempre maior do que a soma das partes. As visões de cada um, se bem que saudavelmente divergentes, devem apontar para o bem comum. Isso pura e simplesmente não acontece na sociedade portuguesa actual.

Nesse aspecto, dificilmente poderemos ser considerados como uma nação. Se o somos é apenas de modo formal, porque não somos outra coisa diferente. Como temos de ser qualquer coisa, então somos portugueses. Tirando as ligações de afinidades e amizades e as ligações familiares que todos preservamos, pouco nos une para além da língua e do espaço territorial que ocupamos. Não é pouco mas também não chega. Não existe qualquer desígnio nacional sério ou credível. Somos um conjunto de indivíduos a tentar fazer pela vida…

Ao sentimento de revolta de que falei no início do texto, tentei responder com desenhos, cartazes, textos e outros activismos mais concretos e menos cibernautas, no sentido de agastar o que pensava estar incorrecto, tentando dar o meu modesto contributo para inflectir tudo o que pudesse ser inflectido e mudado para melhor ou, pelo menos, tentar evitar uma mudança para pior.

Estes últimos tempos, em que manifestamente a qualidade das decisões políticas no campo económico, social, educativo, enfim, em todos os campos que realmente interessam, mantiveram uma qualidade sofrível, levam-me a encarar a situação de um outro modo. Já não me preocupo tanto. Porquê? Porque pura e simplesmente já não vale a pena. Isto não é vontade de desistir e baixar os braços, é apenas a constatação, para mim claríssima, de que as coisas vão ter ainda que piorar bastante antes de (espero) começarem a melhorar. Inflectir suavemente é aparentemente impossível!  Mudar pacificamente e voluntariamente as mentalidades? Previlégios adquiridos, oligarquias e corporações? Não me parece.

O tecido social tende neste momento para o colapso, pela mão de uma economia, uma justiça e um sistema de ensino que não funcionam devidamente. Pergunto-me se, a bem do futuro, não será disso que precisamos no presente – um colapso do velho para que algo de novo tenha espaço para surgir.

Para usar uma metáfora informática, Portugal parece um daqueles computadores cheios de vírus e de lixo que já não respondem, independentemente das teclas em que carregarmos. A única solução é fazermos o “reset”, reformatar o disco, desligar a ficha e depois tentar ligá-lo outra vez.

Só espero que seja razoavelmente pacífico… Afinal, seremos ou não um povo de “brandos costumes”?

Anúncios
Comentários
  1. Sim ! Só com demolição é que fazemos a casa onde não nos chove na cama.

  2. É evidente que ninguém de bom senso pode discordar desta argumentação e eu tb partilho desta análise. Permito-me, no entanto, discordar da conclusão. Essa posição de deixar arder até ao colapso total, pode perceber-se, mas não me parece consequente. Desistir nunca pode ser uma opção. Deixar a clique instalada refastelar-se até não poder mais e ouvi-la apelar aos amplos consensos e ao conserto das boas vontades é demasiado ofensivo para quem procura um mínimo de verticalidade. A postura do deixa andar, muito portuguesa, é exactamente a que convém aos grupos que se barricaram lá em cima e inventaram toda a série de obstáculos para armadilhar o caminho de saída. Temos de fazer precisamente o contrário. Nunca desistir de denunciar, de protestar, de organizar os descontentes, de ir metendo todos os pauzinhos na grande engrenagem. Os novos barões têm de sentir que não estão à vontade para realizar todos os desmandos, têm de sentir que há sempre alguém que os descobre….têm de perceber que há sempre alguém que diz NÃO!!!!

  3. Protestografico diz:

    É uma questão de sensatez reconhecer o que é que cada um de nós pode fazer e o momento para o fazer. Existe uma altura para agir e outra para não agir. A não-acção, na época certa, será a melhor acção. O que quis dizer no post é que, como os movimentos de mudança são forçosamente colectivos, as pessoas têm ainda que sentir mais e mais na carne e no osso a gravidade da situação para que acordem e sejam levadas a agir. As coisas não dependem só de quem já percebeu há muito tempo que as coisas tinham que tomar outros rumos. Quando existir o número de pessoas suficiente predisposta a AGIR pensando pela sua própria cabeça (que é uma coisa que também dá trabalho…), então podemos mudar verdadeiramente as coisas. A questão é que não basta dizer não… é preciso agir de acordo com o “não” que se clama e, depois, alinhar alternativas.
    Só quando o sofrimento pelo desconforto social for maior do que o sofrimento de ter de alinhar um esboço concertado de real resistência e mudança é que a s coisas vão acontecer. A meu ver, esse momento ainda não chegou. Mas não irá tardar muito!

  4. Até pode ser verdade que o momento de agir talvez ainda não tenha chegado. Nem sei se alguma vez chegará (estou a pensar na alegoria da rã dentro de um tacho com água a aquecer). Mas tb me parece que não devemos ficar sentados à espera que a tempestade chegue. Penso que devemos fazer soprar os ventos da mudança sempre que pudermos e enviar a nossa mensagem por todos os meios, fazendo com que as pessoas sintam que não estão sozinhas no combate, no proptesto, na denúncia e na condenação da ideologia oficial dominante.Repare-se que mesmo algumas (poucas) figuras aparentemente impolutas do regime com Maria de Belém, Victor Ramalho e mais um ou outro, apesar de virem sempre com aquela postura diáfana de pairar acima do lodaçal, nunca se demarcam claramente de todos e cada um dos cancros que todos os dias saltam cá para fora.Ou seja, são sempre inteiramente coniventes, mesmo se não aplaudem como fazem os panegiristas oficiais da clique. É essa cultura de impunidade que urge inverter, arrasar por todos os meios……

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s