Archive for the ‘Opinião’ Category

© ProtestoGráfico

Permitam-me os meus poucos (mas presumo, bons) leitores, este discurso algo pessoal:

Há alguns anos a esta parte tenho experimentado um sentimento de revolta pelo modo como a governação do país tem sido conduzida e o seu património delapidado e sugado por uma elite que só o é por força de circunstâncias políticas favoráveis, raramente por mérito ou dedicação à causa pública. Estou entre aqueles que usando apenas de comum bom senso percebiam que o desenvolvimento da situação social e económica nos últimos 15 anos (para dizer no mínimo) em Portugal, tendia para o desfecho que agora começamos a vislumbrar. Os motivos pelos quais nos deixámos arrastar até aqui penso que se devem à nossa mentalidade intrínseca de pouca exigência, laxismo e preguiça. Nós, portugueses, até conseguimos ser exigentes, diligentes e afoitos; mas mais com os outros do que connosco próprios. Por muito maus que sejam os nossos governantes eles são o nosso espelho enquanto povo no sentido em que, como colectivo, fomos nós que os elegemos. O leitor poderá dizer que não votou neste ou naquele e portanto, não se sente responsabilizado… O problema é que a sociedade se constrói pelo todo e esse todo é sempre maior do que a soma das partes. As visões de cada um, se bem que saudavelmente divergentes, devem apontar para o bem comum. Isso pura e simplesmente não acontece na sociedade portuguesa actual.

Nesse aspecto, dificilmente poderemos ser considerados como uma nação. Se o somos é apenas de modo formal, porque não somos outra coisa diferente. Como temos de ser qualquer coisa, então somos portugueses. Tirando as ligações de afinidades e amizades e as ligações familiares que todos preservamos, pouco nos une para além da língua e do espaço territorial que ocupamos. Não é pouco mas também não chega. Não existe qualquer desígnio nacional sério ou credível. Somos um conjunto de indivíduos a tentar fazer pela vida…

Ao sentimento de revolta de que falei no início do texto, tentei responder com desenhos, cartazes, textos e outros activismos mais concretos e menos cibernautas, no sentido de agastar o que pensava estar incorrecto, tentando dar o meu modesto contributo para inflectir tudo o que pudesse ser inflectido e mudado para melhor ou, pelo menos, tentar evitar uma mudança para pior.

Estes últimos tempos, em que manifestamente a qualidade das decisões políticas no campo económico, social, educativo, enfim, em todos os campos que realmente interessam, mantiveram uma qualidade sofrível, levam-me a encarar a situação de um outro modo. Já não me preocupo tanto. Porquê? Porque pura e simplesmente já não vale a pena. Isto não é vontade de desistir e baixar os braços, é apenas a constatação, para mim claríssima, de que as coisas vão ter ainda que piorar bastante antes de (espero) começarem a melhorar. Inflectir suavemente é aparentemente impossível!  Mudar pacificamente e voluntariamente as mentalidades? Previlégios adquiridos, oligarquias e corporações? Não me parece.

O tecido social tende neste momento para o colapso, pela mão de uma economia, uma justiça e um sistema de ensino que não funcionam devidamente. Pergunto-me se, a bem do futuro, não será disso que precisamos no presente – um colapso do velho para que algo de novo tenha espaço para surgir.

Para usar uma metáfora informática, Portugal parece um daqueles computadores cheios de vírus e de lixo que já não respondem, independentemente das teclas em que carregarmos. A única solução é fazermos o “reset”, reformatar o disco, desligar a ficha e depois tentar ligá-lo outra vez.

Só espero que seja razoavelmente pacífico… Afinal, seremos ou não um povo de “brandos costumes”?

Anúncios

Este post é um pouco diferente do habitual… Não tem cartaz ou ilustração. É apenas um relatar de impressões.

Estava eu hoje de manhã a dar uma vista de olhos pela blogosfera, visitando os blogues dos “tempos heróicos” da resistência contra as políticas governamentais para a Educação; Umbigo, Profblog, Promova, Mup, APEDE e etc., quando deparo com o post do Kaos com um  título mais que perfeito: “Passeio pela Avenida”. Tal como ele, também eu tive a noção de que no sábado não fui lá fazer outra coisa senão passear… Cheguei pela lateral na avenida da Liberdade e esperei que passassem os professores para me integrar no corpo da manifestação e lá fui eu. Foi agradável e catártico; falei com velhos conhecidos da APEDE e do MUP. Trocámos desabafos…

Pendurados nos postes da avenida estavam já os cartazes das festas de Lisboa que irão começar dentro de dias. Nesses cartazes figuram imagens estilizadas com umas sardinhas antropomórficas. Não pude deixar de sorrir pois senti-me exactamente como uma sardinha alegre e contente a descer pela avenida abaixo… Tive a nítida sensação de que poucos dos que lá estavam acreditavam na utilidade da sua presença enquanto agentes de protesto. Nem os representantes partidários, nem os trabalhadores e professores e nem sequer os sindicatos encararam aquele evento como outra coisa que não fosse uma “prova de vida”; dizer a toda a gente, para fora e para dentro que “estamos vivos” e a fazer aquilo que sabemos fazer da mesma maneira e com os mesmos resultados de sempre. Foi penoso ouvir aquelas frases entoadas pelos pregoeiros de serviço; forma e conteúdo exangues da mais ínfima porção de criatividade, a repetição sincopada e mecânica. O ambiente era de protesto ameno e coreografado com a sofisticação de um baile de aldeia. Tudo se desenrolou mais de acordo com um comício-festa do que com uma manifestação de protesto, o que não deixa de ser estranho, numa altura em que nunca houve tantas e tão legítimas razões para protestar…

E a minha questão é: se é difícil para os próprios intervenientes terem confiança na eficácia da manifestação em que acabam de participar que tipo de atenção é que podem esperar receber das esferas do poder para com os seus pontos de vista? Que tipo de “mossa” poderá fazer um protesto destes nas convicções monolíticas daqueles que nos (des)governam? Nenhuma.

Por isso, esqueçam as contagens. Não interessa se foram 300, 200 ou 100 mil. Os números já não interessam. Quem, no caso dos professores, conseguiu reunir 120 mil e com esse feito não conseguiu nada já devia ter percebido que o caminho não era por aí. Não será pelo músculo mas sim pelos miolos que nós, porventura, poderemos conseguir uma mudança de atitude. E já agora, digam-me lá:  será que com governantes trapalhões e com uma certa tendência para a incompetência como são os nossos não haverá ninguém de entre as nossas fileiras que chegue para eles? Não haverá ninguém com ideias de resistência e de protesto que sejam inovadoras e eficazes? É evidente que sim!

Enquanto acabava a minha volta pela blogosfera, eis que recebo por mail, um trabalho de uma aluna minha para comentar. O trabalho tinha por título “Mudar de Vida”. Outro título certeiro, embora num outro contexto! Mudar de vida é o que temos de fazer no que respeita à forma de exercer a cidadania e o direito ao protesto.

Ideias precisam-se!!

©ProtestoGráfico

Pode ser um  assunto de somenos importância, sobretudo no momento actual, mas a vida é feita de pequenos detalhes que podem não matar mas que, inexoravelmente, acabam por moer.

Estou a falar dos parquímetros, essa verdadeira actividade especulativa baseada no património público que ninguém pode negar que é um bom negócio! Uma Câmara Municipal quer fazer dinheiro. Então, associa-se com uma empresa especializada em gestão de parquímetros que (obviamente) também quer fazer dinheiro. O terceiro ingrediente é o espaço propriamente dito. O espaço que é público (portanto de todos nós) mas que todos nós temos de “alugar” se quisermos estacionar o nosso carro seja para trabalho ou lazer. (mais…)

campanhanegra1

©ProtestoGráfico

Pois é. Tenham medo… muito medo. Ou melhor ainda, acordem! Só a existência de uma campanha negra é que pode explicar o insucesso tão notório e endémico do nosso país. Só que a campanha é da parte da tutela política e das elites que, desgraçadamente, permitimos que se instalassem no poder. E o alvo somos nós. A Clara Ferreira Alves escreveu certeiro e demolidor sobre a questão da justiça que é um dos pilares fundamentais de qualquer estado dito de direito…

“Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido. 

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA – mas não de construção económica – aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos. 

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades. 

Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. 



A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. 

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. 

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. 

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. 

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. 

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. 



Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? 

Vale e Azevedo pagou por todos? 

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida? 

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? 

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? 

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? 

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? 



Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. 

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? 

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância. 

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? 

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? 

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. 

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? 

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? 

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. 

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? 

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca. 



Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. 



Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. 

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. 



Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de protecções e lavagens , de corporações e famílias , de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. 

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa”



Clara Ferreira Alves – “Expresso”