Archive for the ‘Políticas’ Category

Óptimo texto de Pedro Barbas Homem no “i”online (6 Dez)

Aqueles que agora invocam a necessidade foram os mesmos que a provocaram

Um velho provérbio lembra: a necessidade não precisa de lei. Foi em torno desta ideia fundamental, formulada inicialmente por teólogos e canonistas medievais, que se veio a estruturar a teorização de regimes autoritários e ditaduras. Os argumentos utilizados pela retórica política autoritária assentam no binómio necessidade e urgência. Actos administrativos ilegais e leis inconstitucionais sempre foram apresentados e justificados debaixo da ideia de que eram urgentes e necessários.

Outra máxima política dos tempos da monarquia absoluta era que as loucuras dos reis pagam os povos. Hoje, mesmo sem reis, continuam a ser os povos a pagar as loucuras dos governantes. Quando ainda ecoam as comemorações da República e a invocação da ética e do ethos republicano, fica claro que a retórica dos discursos comemorativos nada tem que ver com a prática política, nomeadamente a expropriação sem justa causa ou a nacionalização arbitrária dos rendimentos de tantos portugueses.

Estão em causa três exigências fundamentais da política e da ética democráticas: representação, diálogo, publicidade. Se os deputados representam o povo é debaixo da condição de respeitarem as promessas políticas que determinaram a sua eleição. Se os deputados não respeitam esse compromisso não são dignos desse nome. Como escreveu Norberto Bobbio, as promessas não cumpridas matam a democracia. A democracia é também diálogo. Contraposta à ideia de razão de Estado, que não pode ser negociada, a ideia de razão pública é que tem de existir debate, consenso social alargado nas questões fundamentais da coisa pública. Hoje regressa a política do segredo e da razão de Estado. Mas precisamente o que a opinião pública quer saber, precisa de saber e numa democracia tem o direito de saber é a razão de ser das medidas decretadas pelos políticos, em que estudos preparatórios se baseiam, que consequências foram medidas. O segredo domina, quando não sabemos o que levou o governo a mudar de ideias, dias passados sobre promessas e compromissos com negócios. A opinião pública gostaria de ter acesso às actas do Conselho de Ministros e aos documentos preparatórios do Orçamento do Estado.

A opinião pública gostaria que existisse um relatório público com os gastos com a nacionalização do BPN: se os contribuintes têm de pagar milhares de milhões de euros dos seus impostos e salários, isto significa que outras pessoas beneficiaram com esses milhões. Os representantes dos contribuintes têm o dever de se interessar por saber para que bolsos foram transferidos esses dinheiros. Ou os dinheiros das parcerias público-privadas. Ou dos estádios do Euro, entre tantos gastos sumptuários e desnecessários.

Os escândalos financeiros da Primeira República foram uma das principais causas do seu descrédito. E os da Terceira República? Denunciados por muitos, demonstrados pelo Tribunal de Contas em muitos casos não pode passar-se uma esponja sobre eles.

Ao mesmo tempo, uma imensa oligarquia beneficia da desestruturação do Estado. Aqueles que agora invocam a necessidade foram os mesmos que a provocaram. A ética republicana apregoada ontem deveria recordar que em nenhum caso pode um funcionário do Estado receber mais que o chefe de Estado. A redução dos salários excessivos é imperiosa, por uma questão de princípio e de justiça.

Chegamos assim a um ambiente geral de fim da República, assente nos escândalos financeiros, na falta de moralidade com os gastos públicos, na ausência de uma política de coesão social e regional, mas também na ausência de representação democrática. Quanto ao argumento invocado é o de que a ditadura da necessidade impõe estas soluções – e não quaisquer outras, a estudar e negociáveis – e, quando os políticos estão comprometidos com anos de governação que não evitaram chegar à solução da necessidade, o regime é afinal o da ditadura da necessidade.

Se não existe representação nem publicidade não vivemos numa democracia. Quando muito, recorrendo a uma velha intuição de Platão, vive-se numa teatrocracia, que utiliza a televisão e outros meios de comunicação para representar um papel – como no teatro os actores declamam e repetem um texto anterior. Ou numa oligarquia, em que um grupo restrito monopoliza o poder para seu benefício. Não se ouviu, aliás, proclamar que o povo tem de sofrer as dores dos seus governantes? Nem mesmo um nobre numa monarquia seria capaz de dizer semelhante absurdo.

A ditadura da necessidade é apenas um argumento utilizado para justificar a suspensão da democracia e do que ela implica: valores e princípios, discussão na esfera pública acerca das decisões políticas, consenso sobre os aspectos fundamentais da vida social.

Em democracia há sempre alternativas.

Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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Alguém de entre vós já viu o governo de Sócrates ficar REALMENTE incomodado com alguma greve ou mega-manifestação que tenha ocorrido nos últimos seis anos, a ponto de mudar algo, por pequeno que seja nas suas políticas (tirando a última greve dos camionistas)? Alguma reivindicação séria foi REALMENTE atendida, fruto das manifestações, greves ou habilidade negocial dos sindicatos (os que ainda mexem, porque alguns só aparecem quando surge a oportunidade de cavalgar uma onda iminente de descontentamento)?? Não perguntem aos sindicatos. Perguntem a vocês próprios! Numa situação que é grave, está convocada mais uma greve, desta vez “geral”, que fará as delícias sindicalistas no reforço da auto-ilusão de que eles próprios ainda servem para alguma coisa, e mais; o reforço da auto-ilusão de que muita gente ainda não tenha dado por isso…

O resto é festa… é catarse. O que nós precisamos é de acção bem dirigida, com a atitude correcta, ao serviço daquilo que consideramos justo e não ao serviço de grupos, sindicais ou corporativos, que muito bem tentam manipular as massas em seu benefício (até pareço um anarquista a falar mas foi sem intenção…). Catarse colectiva, festa e comício já tivemos, muito obrigado! E a bem dizer, uma greve como as outras, nesta altura de penúria, servirá para alguma coisa?

Credibilidade é o bem mais precioso e escasso no panorama político nacional, neste momento. O governo não tem e os sindicatos também não. E entre fazer qualquer coisa e não fazer nada, engrossamos as estatísticas favoravelmente a um ou ao outro. Quanto à greve de 24 de Novembro só digo isto: talvez faça, mas a 23 ou a 25… a 24, duvido!

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Permitam-me os meus poucos (mas presumo, bons) leitores, este discurso algo pessoal:

Há alguns anos a esta parte tenho experimentado um sentimento de revolta pelo modo como a governação do país tem sido conduzida e o seu património delapidado e sugado por uma elite que só o é por força de circunstâncias políticas favoráveis, raramente por mérito ou dedicação à causa pública. Estou entre aqueles que usando apenas de comum bom senso percebiam que o desenvolvimento da situação social e económica nos últimos 15 anos (para dizer no mínimo) em Portugal, tendia para o desfecho que agora começamos a vislumbrar. Os motivos pelos quais nos deixámos arrastar até aqui penso que se devem à nossa mentalidade intrínseca de pouca exigência, laxismo e preguiça. Nós, portugueses, até conseguimos ser exigentes, diligentes e afoitos; mas mais com os outros do que connosco próprios. Por muito maus que sejam os nossos governantes eles são o nosso espelho enquanto povo no sentido em que, como colectivo, fomos nós que os elegemos. O leitor poderá dizer que não votou neste ou naquele e portanto, não se sente responsabilizado… O problema é que a sociedade se constrói pelo todo e esse todo é sempre maior do que a soma das partes. As visões de cada um, se bem que saudavelmente divergentes, devem apontar para o bem comum. Isso pura e simplesmente não acontece na sociedade portuguesa actual.

Nesse aspecto, dificilmente poderemos ser considerados como uma nação. Se o somos é apenas de modo formal, porque não somos outra coisa diferente. Como temos de ser qualquer coisa, então somos portugueses. Tirando as ligações de afinidades e amizades e as ligações familiares que todos preservamos, pouco nos une para além da língua e do espaço territorial que ocupamos. Não é pouco mas também não chega. Não existe qualquer desígnio nacional sério ou credível. Somos um conjunto de indivíduos a tentar fazer pela vida…

Ao sentimento de revolta de que falei no início do texto, tentei responder com desenhos, cartazes, textos e outros activismos mais concretos e menos cibernautas, no sentido de agastar o que pensava estar incorrecto, tentando dar o meu modesto contributo para inflectir tudo o que pudesse ser inflectido e mudado para melhor ou, pelo menos, tentar evitar uma mudança para pior.

Estes últimos tempos, em que manifestamente a qualidade das decisões políticas no campo económico, social, educativo, enfim, em todos os campos que realmente interessam, mantiveram uma qualidade sofrível, levam-me a encarar a situação de um outro modo. Já não me preocupo tanto. Porquê? Porque pura e simplesmente já não vale a pena. Isto não é vontade de desistir e baixar os braços, é apenas a constatação, para mim claríssima, de que as coisas vão ter ainda que piorar bastante antes de (espero) começarem a melhorar. Inflectir suavemente é aparentemente impossível!  Mudar pacificamente e voluntariamente as mentalidades? Previlégios adquiridos, oligarquias e corporações? Não me parece.

O tecido social tende neste momento para o colapso, pela mão de uma economia, uma justiça e um sistema de ensino que não funcionam devidamente. Pergunto-me se, a bem do futuro, não será disso que precisamos no presente – um colapso do velho para que algo de novo tenha espaço para surgir.

Para usar uma metáfora informática, Portugal parece um daqueles computadores cheios de vírus e de lixo que já não respondem, independentemente das teclas em que carregarmos. A única solução é fazermos o “reset”, reformatar o disco, desligar a ficha e depois tentar ligá-lo outra vez.

Só espero que seja razoavelmente pacífico… Afinal, seremos ou não um povo de “brandos costumes”?

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Austeridade “não toca na gordura do Estado e nos interesses da oligarquia”

Entrevista a Henrique Neto, no “Público” de hoje, plena de lucidez.

Alguns extractos:

“Pelo que se ficou a saber, certo é apenas que os portugueses pagarão, em 2011 e nos anos seguintes, os erros, a imprevidência e a demagogia acumulada em cinco anos de mau Governo. É por isso que, nestas circunstâncias, falar da coragem do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, como alguns têm feito, é um insulto de mau gosto a todos os portugueses que trabalham, pagam os seus impostos e vêem defraudadas as suas expectativas de uma vida melhor. As medidas propostas, sendo inevitáveis, dada a dimensão da dívida e a desconfiança criada pelo Governo junto dos credores internacionais, não tocam no essencial da gordura do aparelho do Estado e nos interesses da oligarquia dirigente. Mas o pior é que estas medidas, pela sua própria natureza, não são sustentáveis no futuro e não é expectável que, com este Governo, se consiga o crescimento sustentado da economia.”

“A consolidação das contas públicas é uma condição necessária mas não suficiente. Apenas o crescimento sustentado da economia abrirá novas perspectivas aos portugueses. Mas, neste domínio, José Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente.
Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.”

Entrevista completa aqui:

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…porque mudou completamente nos últimos 15 dias!

Quem faz afirmações destas está absolutamente convicto de que tem como governados uma troupe de papalvos.

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Quem não conhece ou não entende a história está condenado a repeti-la. Desde o ínicio do mandato deste governo que fiquei intrigado com a explícita animosidade demonstrada face aos professores. Pensei, ao princípio, que fosse uma questão de estilo, uma espécie de “falar grosso” para meter a casa em ordem. Mas não. Tratava-se de um plano de acção muito mais vasto. Estou hoje convencido que esta animosidade que o governo PS nem se deu ao trabalho de disfarçar é uma questão de regime. Os professores (e digo isto sem laivos corporativistas) são uma das classes profissionais mais cultas e, sobretudo, com uma maior consciência política e social. Por isso foram desde logo um alvo a abater. Todo o mandato foi caracterizado pela tentativa de proletarização e domesticação dos professores. A ideia era transformá-los em meros funcionários públicos submissos e executores das políticas educativas de base mercantilista emanadas deste governo cujo rótulo de “socialista” só pode ser uma piada e uma afronta ao conceito ideológico, político que é o verdadeiro socialismo. (mais…)

Em dia de reflexão para as eleições do Parlamento Europeu, longe de mim querer influenciar alguém…

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Nem tudo foi a pique…

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Estamos em pleno “dia de reflexão” para as eleições do parlamento europeu. Reflexão puxa reflexão e acabei por fazer um balanço da legislatura do governo Sócrates. E o balanço não é bom… vá-se lá saber por quê! As preocupações deveriam ser genuinamente europeias e os assuntos e decisões deveriam andar à volta da inevitável questão do reforço da credibilidade que é necessário conferir à Europa enquanto espaço económico mas também enquanto espaço cultural e social.

Ao pensar em questões internas em vez de europeias, não estou a fazer nada que a maioria dos políticos nesta campanha não tenha feito também: um completo borrifanço, passo a expressão,  para as questões europeias em detrimento da vidinha nacional e da já corriqueira distribuição de culpas pelo estado da nação.

O ponto chave para inverter esta decadência do ideal europeu passa pelo esforço de nomear bons líderes para os governos nacionais que encarem a Europa na sua devida perspectiva. Trata-se de “arrumar a nossa casa” em primeiro lugar e depois pensar no bairro…

Voltando à tal reflexão retrospectiva, por puro deleite gráfico à mistura com uns pózitos de sátira corrosiva, surgiram estas representações do balanço da legislatura de maioria absoluta PS, entre 2004 e 2009. Tratou-se de mais um período de oportunidades grosseiramente desperdiçadas por parte de um aparelho partidário que, quanto a mim, claramente não merece uma segunda oportunidade neste quadro eleitoral que se vive. Espero que a memória dos portugueses seja suficientemente longa e o espírito suficientemente aberto para que novas oportunidades (reais, não aquelas do Ministério de Educação) surjam para Portugal.

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Um amigo pediu-me para fazer mais um crachá. Desta vez com a ressalva “neste” PS. Enfim… Cá está ele. Se bem que já tive oportunidade de lhe dizer que no que me diz respeito, não votaria neste nem em nenhum PS, pelo menos enquanto tiver aquela clientela e enquanto eu me lembrar deste mandato de maioria absoluta. E eu sou daqueles com uma memória muito longa!…

Mais crachás aqui

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Alguém com os pés minimamente assentes na terra poderá acreditar que a grande via de combate à crise reside na construção de uma linha de TGV com um custo de perto de nove mil milhões de euros, não contando com as derrapagens orçamentais do costume? Eu até gosto de comboios. É uma coisa que vem de infância. Confesso que um TGV novinho em folha a dardejar pelos campos deste nosso Portugal até poderia fazer-me acreditar, por breves momentos que fossem, que estaríamos num país desenvolvido. Mas acorde quem ainda está embriagado com o brilho da tecnologia! Nós não precisamos do TGV. É óbvio que ter infra-estruturas modernas e funcionais é necessário e a opção ferroviária é boa. No entanto, existem alternativas de modernização da linha Lisboa-Porto (como por exemplo o alfa-pendular) que encurtariam o tempo de viagem por uma fracção do custo do TGV.

A pressa em lançar este investimento faraónico pode ter várias explicações. Na melhor das hipóteses, uma convicção provinciana nas virtudes sociais do investimento, com a criação de postos de trabalho (pelo menos enquanto a obra durar). Na pior, poderá tratar-se pura e simplesmente de assegurar que os contratos chorudos para as empreitadas de construção ficam nos “boys” certos antes da possibilidade de um resultado desfavorável nas próximas eleições legislativas deitar tudo a perder.

No mínimo, uma decisão deste peso económico, deveria ser adiada para depois das eleições como fez notar e bem Paulo Rangel. Os partidos esclareceriam nos seus programas eleitorais as suas opções face a esta questão e os portugueses avalizariam ou não a decisão nas urnas.

O investimento gigantesco no TGV, além de pagar uma opção mais económica como o Alfa pendular, ainda sobraria para pagar numerosas pequenas empreitadas na área da requalificação urbana, escolas, centros de saúde e outras infra-estruturas de que estamos realmente carenciados.

Sobre a visão muito própria do primeiro ministro sobre este assunto, o comentário do Miguel Gaspar, no Público.

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A existência combinada do sigilo bancário e dos off-shores tem-se revelado uma benesse para tudo o que é encobrimento de operações financeiras ilegais, lavagem de dinheiro, pagamentos por tráfico de influências, fuga ao fisco e enriquecimento ilícito. Foi contabilizado recentemente que um quarto da riqueza privada mundial se situa em off-shores, sem impostos cobrados, sem proveniência definível, sem perguntas… Carlos Pimenta, num artigo para a Visão explica a possibilidade de, pela primeira vez, se estar a avançar seriamente no sentido de impor regras rigorosas de transparência e  restringir os benefícios fiscais que se destinem apenas a aplicações financeiras de grupos e particulares  que não representem investimentos palpáveis nas economias locais. Esta linha de acção foi esboçada na última reunião dos G20 e tem todas as hipóteses de singrar. Nova ética no mundo financeiro? Não. Pura e simples necessidade, face à hecatombe e à recessão dos mercados.

Em Portugal, com o recente diploma do BE que colheu apoios em outros quadrantes partidários, também parece que se avança finalmente para por cobro ao sigilo bancário que atrasa ou mesmo impede a acção da investigação fiscal e criminal para detectar movimentos financeiros ilícitos. 

Sigilo bancário e off-shores… é preciso banir!

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Não basta dizer que vivemos numa democracia. É preciso saber primeiro definir o conceito de democracia, decidir em que democracia queremos viver e ter a capacidade de lutar por ela no dia a dia, desenvolvendo-a continuamente, aperfeiçoando-a. Há quem confie ainda na questão dos “direitos adquiridos” mas essa confiança pode ser a própria morte do regime democrático.

“Temos um problema: a qualidade da democracia está a decair em todo o lado”, constatou ontem o académico Philippe Schmitter, no encerramento do III Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política. O professor do Instituto Universitário Europeu (IUE), um dos mais conceituados teóricos sobre a democratização, trouxe à Fundação Calouste Gulbenkian algumas das preocupações recorrentes do seu trabalho: por um lado, as condições em que pode ser bem sucedida a transição para a democracia e a sua consolidação e, por outro, o “desencanto” com este regime.

O desencanto, considera Schmitter, resulta da “disparidade entre a fé persistente na democracia” e a sua concretização com resultados aquém das expectativas. A qualidade das democracias está a cair não só nos países que aderiram a ela recentemente, como é o caso de Portugal, mas também nas democracias consolidadas, considerou o investigador. E enumerou sintomas desse “empobrecimento”: diminuição da participação nas eleições, desinteresse dos cidadãos pelos partidos políticos e pelos sindicatos, aumento da desconfiança em relação aos políticos e às instituições democráticas.

Após a queda do Muro de Berlim não surgiram alternativas credíveis ao regime democrático, e as consequências estão à vista: “A ausência de alternativas está a minar e não a reforçar as democracias existentes”, afirma Schmitter, concluindo que “seria melhor para o futuro da democracia que houvesse uma ameaça séria a esta, porque isso traria o ímpeto para a reforma da própria democracia”.

In DN online, 1 de Abril 2009

Ameaças sérias ao futuro da democracia existem certamente…e não vêm do exterior. A questão que se põe é: Teremos nós a capacidade para as identificar e debelar?

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Pois é. Tenham medo… muito medo. Ou melhor ainda, acordem! Só a existência de uma campanha negra é que pode explicar o insucesso tão notório e endémico do nosso país. Só que a campanha é da parte da tutela política e das elites que, desgraçadamente, permitimos que se instalassem no poder. E o alvo somos nós. A Clara Ferreira Alves escreveu certeiro e demolidor sobre a questão da justiça que é um dos pilares fundamentais de qualquer estado dito de direito…

“Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido. 

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA – mas não de construção económica – aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos. 

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades. 

Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. 



A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. 

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. 

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. 

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. 

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. 

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. 



Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? 

Vale e Azevedo pagou por todos? 

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida? 

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? 

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? 

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? 

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? 



Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. 

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? 

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância. 

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? 

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? 

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. 

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? 

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? 

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. 

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? 

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca. 



Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. 



Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. 

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. 



Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de protecções e lavagens , de corporações e famílias , de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. 

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa”



Clara Ferreira Alves – “Expresso”

Europa, Europa…

Posted: 04/03/2009 in Europa, Políticas

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Tinha 20 anos de idade quando Portugal aderiu à União Europeia e o sentimento quase geral nessa altura era de euforia. Finalmente estávamos no rumo da hoje tão falada convergência com os países desenvolvidos da Europa. Havia também um regozijo popular pelo assumir de uma herança cultural europeia relativamente à qual tínhamos estado de costas voltadas. Vinte e três anos e muitos milhões de euros de fundos comunitários depois, parece que tudo isto assume contornos de oportunidade perdida. Nem nós fomos bons “alunos” nem a Europa conseguiu produzir líderes com visão e carisma suficientes para a verdadeira construção de um ideal europeu. Estamos em risco de voltar hoje aos velhos nacionalismos europeus e a todos os riscos que isso implica. A Europa personifica uma série de valores de Democracia, Liberdade e Sustentabilidade Social e Ambiental, construídos sobretudo no período pós-1945. Eu ainda acredito numa construção europeia que não se baseie fundamentalmente no “business as usual“. Precisamos de uma “Nova Europa”, Já!

Sobre este assunto, um extracto da opinião de Joschka Fischer, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão de 1998 a 2005, num artigo do jornal Público de 1 de Março de 2009:

A Europa em Marcha Atrás

“O lendário investidor americano Warren Buffet disse uma vez que “é quando a maré desce que se descobre quem andava a nadar nu”. Esta pequena pérola de sabedoria referia-se à situação de empresas numa crise económica. Pode ser perfeitamente aplicada aos países e às economias. A situação europeia está a suscitar uma preocupação crescente porque a crise económica global está a revelar de forma dramática as limitações e as fraquezas da União Europeia. Em primeiro lugar, ela tornou evidente aquilo que a UE perdeu com a rejeição do tratado constitucional: a confiança em si própria e o seu destino comum. Confrontada com a pior crise desde 1929, a América já fez a sua escolha por uma verdadeira renovação ao eleger Barack Obama, e agora está a reinventar-se a si própria. Em contraste, cada dia que passa parece dividir ainda mais os membros da União Europeia. Em vez de se reinventar a si própria, a Europa, sob a pressão da crise e das suas contradições internas, ameaça regressar aos egoísmos nacionais e ao proteccionismo do passado.” (…) “Quanto mais a crise se prolonga, mais se torna óbvio que o euro e o BCE não chegam para defender o mercado único e a integração europeia.”…

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