Archive for the ‘Professores em Luta’ Category

Um post nada gráfico, mas é o que me vai na alma. Deixemo-nos de panos quentes e de conversa fiada…

Fala-se muito em enveredar por formas de luta que sejam realmente eficazes para contrariar a inexorável degradação das condições de trabalho humanas dos professores (em gritante contraste com a atenção dada, por parte deste governo e dos blocos económicos que o rodeiam, à melhoria das condições materiais das instalações e equipamentos).

Temos todos presente o tipo de acções de luta que os sindicatos têm proposto até aqui: principalmente manifestações e greves parciais com um máximo de um dia de duração. Também não vale a pena falar na actual greve em curso às horas extraordinárias, que poucos detêm. Toda a gente constata que não chega e que este modelo há muito esgotou.

Acontece que a política de desrespeito pela vertente humana de quem trabalha é uma característica – diria mesmo, uma imagem de marca – de quem neste momento detém o poder de decisão em Portugal e essa característica não dá mostras de perder o fôlego. Na Educação, esse desrespeito é visível tanto na visão global que para ela o poder fabricou como também é visível nas ínfimas coisas, muitas vezes decisões avulsas, tomadas com intenção de poupar a todo custo, mas – e isto é que não é perdoável – disfarçadas de pseudo-virtudes de carácter pedagógico ou de práticas de boa gestão de recursos humanos. A longo prazo, não são nem uma nem outra coisa.

Tem-se ventilado que, para gerar uma posição negocial de força, uma greve deveria orientar-se para um de dois sentidos ou para ambos:

  • Greve prolongada às actividades lectivas
  • Greve num momento-chave, como são as avaliações ou os exames.
Vamos analisar cada uma destas opções:
A greve prolongada, para ter efeitos reais, deve ser isso mesmo: prolongada. Se o período for de uma semana (o que já é um período de grande duração se levarmos em conta a tradição de luta laboral dos professores), causará pouco mais do que um beliscar suave em todo o sistema, realçando-se o transtorno para os pais que não poderiam deixar os filhos na escola durante esse período (falo nesta questão porque parece ter sido o factor mais polémico quando se realizaram algumas dessas “greves de um dia” – aparentemente, o facto de os alunos estarem um dia sem trabalhar ou aprender era secundário…). Estaríamos portanto a falar de um período de duas semanas, no mínimo.
Quem está convencido de que é possível a classe profissional dos professores, tão economicamente pressionada como qualquer outra no funcionalismo público, enveredar por um tipo de luta que exija um tal sacrifício? Eu estou convencido que tal não será possível nem realista.

A greve a “momentos-chave”, como sejam as reuniões de avaliação, a vigilância de exames ou a correcção dos mesmos, teriam o potencial de serem bastante mais eficazes do que uma greve às actividades lectivas normais. Penso que a adesão a esta opção tem sido negligenciada por dois motivos: os sindicatos nunca a encararam verdadeiramente como opção válida (tirando algumas ameaças pontuais, como a que paira actualmente) e tem sido negligenciada também devido a um prurido por parte de muitos professores em causar transtorno directo aos alunos relativamente aos seus processos de avaliação. Têm também alguns professores – mesmo aqueles mais activos na “luta” – dispensado esta ideia, alegando que uma acção deste tipo iria colocar a opinião pública contra os professores.
Vejamos algumas questões ligadas com esta opção: Em primeiro lugar, não acredito que haja um professor digno desse nome que encare de ânimo leve embarcar num acto que prejudique de forma grave os trajectos académicos dos seus alunos. Por outro lado, há que admitir que a essência de todas as greves (como formas de luta a utilizar quando todas as outras já se encontram esgotadas), é exercer pressão e que essa pressão só é possível mediante a perspectiva de privar dos nossos préstimos aqueles que deles beneficiam. Nesse aspecto, penso não poder ser acusado de corporativista ao afirmar que até esta data, todas as acções de luta dos professores se têm pautado por um exemplar cuidado em garantir exactamente o contrário, isto é, que os alunos sejam poupados às consequências deste processo. É evidente que isto é meritório, demonstra ética deontológica mas é também o que tem impedido os professores de conseguir uma única vitória que seja (sejamos francos), apesar das grandes mobilizações verificadas sobretudo em 2008/2009. Nenhuma reivindicação profissional pode depender da aprovação da opinião pública ou está enferma à partida. Além disso, é visível que todo o apoio e simpatia que a causa dos professores porventura mereceu por parte da sociedade, teve poucos ou nenhuns efeitos práticos.

A recusa em participar nas reuniões de avaliação ou de aceitar serviço de exames é complexa e enredada em várias considerações “legais”. Existe a questão dos serviços mínimos e de outros enquadramentos que são invocados não sei com que força ou legitimidade legal porque, além da lei ser complexa e hieroglífica nos dias que correm, ela é também movediça, isto é, depressa se cria um decreto ou um despacho a inverter ou apurar, consoante a necessidade, uma determinada lei. A lei não é portanto a questão. Se pretendemos combater um estado de coisas que se baseia numa “má” lei, não podemos esperar combatê-la no estrito campo dessa mesma lei. Esta forma de luta dá pelo nome de  “desobediência civil” e requer aquilo que muitas vezes escasseia: coragem, afirmação esta que faço sem juízos de valor e incluindo-me no barco.

Surgiu no entanto um facto recente que poderá desencadear uma vertente de contestação válida e que se prende com as novas regulamentações para os professores correctores dos exames nacionais. Quem já perdeu um pouco de tempo a discorrer o Despacho 18060/2010, de 3 de Dezembro, poderá contemplar um sem número de abusos atentatórios do mais básico decoro que deve pautar o relacionamento entre o estado e os seus funcionários. Basicamente, os professores correctores são agora nomeados pelas direcções das escolas, não são remunerados pelas provas que corrigem, estão vinculados ao GAVE para frequentarem obrigatoriamente uma acção de formação por ano durante quatro anos (marcadas já este ano para sextas feiras e sábados de manhã e de tarde) e a ter lugar numa localidade de âmbito concelhio, com uma distância que pode ser respeitável relativamente ao local de trabalho. Também se exige que os professores correctores cubram do seu próprio bolso o transporte para as acções de formação, é-lhes solicitado que levem os seus próprios computadores pessoais e ainda (pasme-se o ridículo) que levem exemplares impressos das provas das duas chamadas dos exames nacionais do ano passado. A caricatura continua com a definição da responsabilidade dos professores em cobrir os custos do transporte das provas entre o local de correcção (que é domicílio dos professores porque as escolas não têm condições para tal) e os agrupamentos de exames.
Enquanto uma greve às reuniões de avaliação se afirmaria de logística complicada e uma greve ao serviço de exames (realizada em termos “legais”, implique isso o que implicar) resultaria no impedimento dos alunos realizarem as suas provas, uma greve dos professores correctores poderia ser uma opção mais viável.
O ministério, na sua ânsia de cortar a eito, esqueceu-se que, acabando com a remuneração da correcção de provas de exame, acabava também com os motivos económicos, porventura menos nobres, que impediam muitos professores de aderir a uma forma de luta deste tipo. Outra vantagem ética é a de que tal procedimento não impediria os alunos de realizarem os seus exames, ficando apenas os resultados deste “congelados” (onde é que eu já ouvi isto?) até que um desbloqueio favorável da situação ocorra.
É um caminho… Porque não pensar nele a sério?
PG

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Foi difícil e cansativo manter uma resistência contra um ministério trapalhão e insensível à realidade vivida tanto por alunos como por professores. Agora, os professores têm ainda que arranjar forças e paciência para aguentar a complacência (leia-se incompetência) com que os sindicatos assistem inpávidos e serenos (se exceptuarmos aquelas declarações pirotécnicas de indignação dúbia para a imprensa e as manifestações da praxe) a todo o rol de medidas que vão sendo aprovadas e implementadas pela cartilha do neo-liberalismo economicista que rege este ministério da educação. Num momento que exigia acção firme, concreta e eficaz contra tudo o que foi claramente rejeitado pelos professores, desde a avaliação nos termos que corre, à gestão escolar, passando pelo nova questão dos mega-agrupamentos e dos concursos, os sindicatos demonstram uma clara falta de apetência para representarem não só os interesses dos professores (é para isso que cá estão, não tenhamos pruridos), como também os interesses do ensino público em geral.

Sobre o momento em que professores e sindicatos estiveram em uníssono na defesa de posições que eram justas e sobre o seu esvaziamento por falta de pulso e de estratégia já muito se escreveu e não vale a pena insistir no assunto. O que interessa é pensar como será o futuro pois a realidade crua e dura é que os professores se sentem abandonados.

Não gostaria que quem lesse estas frases ficasse com a ideia de que este é um discurso bota-abaixista, sem intenção construtiva de alternativas. Mas o que é certo é que para existir essa vontade de reformular construtivamente o ensino público é indispensável primeiro que existem sinais claros de recuo e inversão desta mentalidade gangrenosa que se instalou nos responsáveis actuais pelo ensino. Não é a razoabilidade das propostas alternativas que irá demover os actuais responsáveis. Já temos este facto mais do que provado. Infelizmente, é preciso derrubar primeiro para construir a partir daí, quase da “estaca zero”. É o preço a pagar pela complacência de todos nós…

Um artigo sobre esta questão:

Concurso 2010/11 – Uma Página Negra do Sindicalismo Docente – APEDE


Este post é um pouco diferente do habitual… Não tem cartaz ou ilustração. É apenas um relatar de impressões.

Estava eu hoje de manhã a dar uma vista de olhos pela blogosfera, visitando os blogues dos “tempos heróicos” da resistência contra as políticas governamentais para a Educação; Umbigo, Profblog, Promova, Mup, APEDE e etc., quando deparo com o post do Kaos com um  título mais que perfeito: “Passeio pela Avenida”. Tal como ele, também eu tive a noção de que no sábado não fui lá fazer outra coisa senão passear… Cheguei pela lateral na avenida da Liberdade e esperei que passassem os professores para me integrar no corpo da manifestação e lá fui eu. Foi agradável e catártico; falei com velhos conhecidos da APEDE e do MUP. Trocámos desabafos…

Pendurados nos postes da avenida estavam já os cartazes das festas de Lisboa que irão começar dentro de dias. Nesses cartazes figuram imagens estilizadas com umas sardinhas antropomórficas. Não pude deixar de sorrir pois senti-me exactamente como uma sardinha alegre e contente a descer pela avenida abaixo… Tive a nítida sensação de que poucos dos que lá estavam acreditavam na utilidade da sua presença enquanto agentes de protesto. Nem os representantes partidários, nem os trabalhadores e professores e nem sequer os sindicatos encararam aquele evento como outra coisa que não fosse uma “prova de vida”; dizer a toda a gente, para fora e para dentro que “estamos vivos” e a fazer aquilo que sabemos fazer da mesma maneira e com os mesmos resultados de sempre. Foi penoso ouvir aquelas frases entoadas pelos pregoeiros de serviço; forma e conteúdo exangues da mais ínfima porção de criatividade, a repetição sincopada e mecânica. O ambiente era de protesto ameno e coreografado com a sofisticação de um baile de aldeia. Tudo se desenrolou mais de acordo com um comício-festa do que com uma manifestação de protesto, o que não deixa de ser estranho, numa altura em que nunca houve tantas e tão legítimas razões para protestar…

E a minha questão é: se é difícil para os próprios intervenientes terem confiança na eficácia da manifestação em que acabam de participar que tipo de atenção é que podem esperar receber das esferas do poder para com os seus pontos de vista? Que tipo de “mossa” poderá fazer um protesto destes nas convicções monolíticas daqueles que nos (des)governam? Nenhuma.

Por isso, esqueçam as contagens. Não interessa se foram 300, 200 ou 100 mil. Os números já não interessam. Quem, no caso dos professores, conseguiu reunir 120 mil e com esse feito não conseguiu nada já devia ter percebido que o caminho não era por aí. Não será pelo músculo mas sim pelos miolos que nós, porventura, poderemos conseguir uma mudança de atitude. E já agora, digam-me lá:  será que com governantes trapalhões e com uma certa tendência para a incompetência como são os nossos não haverá ninguém de entre as nossas fileiras que chegue para eles? Não haverá ninguém com ideias de resistência e de protesto que sejam inovadoras e eficazes? É evidente que sim!

Enquanto acabava a minha volta pela blogosfera, eis que recebo por mail, um trabalho de uma aluna minha para comentar. O trabalho tinha por título “Mudar de Vida”. Outro título certeiro, embora num outro contexto! Mudar de vida é o que temos de fazer no que respeita à forma de exercer a cidadania e o direito ao protesto.

Ideias precisam-se!!

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Temos de ir, mesmo sem apetecer muito engolir a costumada coreografia sindical. Porque calados e parados é que não…

Faço minhas as palavras divulgadas pela APEDE em:

“Razões para apoiar a Manifestação de 29 de Maio”

Porque temos sofrido, nos últimos vinte anos de governação, todo um conjunto de opções políticas, no domínio económico-financeiro, que apenas agravaram as insuficiências estruturais de Portugal, criando uma ilusão de desenvolvimento que se vê agora dramaticamente desmentida;

porque essas escolhas desastrosas, de que os Governos foram principais responsáveis, acompanharam o aprofundamento das desigualdades sociais entre os pobres, a classe média e os muito ricos, o aumento exponencial da corrupção e do tráfico de influências, a promiscuidade entre o sistema político-partidário e a esfera dos negócios privados, bem como a reinstauração de monopólios que alimentam os interesses de uns poucos, sem quaisquer vantagens para a economia nacional;

porque o nosso país continua à espera das reformas necessárias no campo da Educação e da Justiça, sem as quais continuaremos na cauda da Europa;

porque os dois principais partidos, que têm partilhado a governação deste país, estão hoje reduzidos a agências de emprego para políticos medíocres e carreiristas, com vergonhosos percursos pessoais, que não os têm, contudo, impedido de ascender a cargos de elevada responsabilidade, nos quais tomam, de forma sempre impune, decisões que hipotecam o futuro de Portugal;

porque são esses políticos, ao serviço de um mundo empresarial dependente de relações promíscuas com o Estado, que agora recorrem à receita invariavelmente seguida, sobrecarregando os trabalhadores com todos os encargos da crise e poupando os que, tendo-a gerado, mais lucraram com ela;

porque nenhuma das gravosas medidas agora impostas irá contribuir para ultrapassarmos, de forma duradoura e sustentada, a crise em que nos mergulharam, prevendo-se, pelo contrário, que a recessão seja acentuada, que o desemprego aumente ainda mais e que o endividamento continue a crescer;

porque toda esta política está desenhada para minar e destruir direitos sociais e laborais conquistados no decurso de décadas de lutas difíceis e duras;

porque é tempo de juntar os trabalhadores de todos os sectores profissionais, públicos e privados, para dizer BASTA;

porque é tempo de unir trabalhadores efectivos e contratados, empregados e desempregados, na certeza de que TODOS se encontram hoje precarizados e de que os direitos de uns são os direitos de TODOS;

porque é tempo de exigirmos uma inversão de políticas que não penalize os que sempre são penalizados e que responsabilize quem tem efectivamente de ser responsabilizado;

a APEDE apela a que TODOS participem na Manifestação do dia 29 de Maio, sem, contudo, deixar de manifestar o seu profundo descontentamento com a forma como as cúpulas sindicais têm vindo a conduzir o processo de luta dos professores, alienando aquela que deveria ser a sua base de apoio, assinando um acordo com o Ministério que preserva uma série de bloqueios graves na nossa profissão e enredando-se em contradições escandalosas no que toca ao concurso de colocação de professores.

Por isso, vamos estar na Manifestação de 29 de Maio sem abdicarmos da nossa atitude crítica, onde se destaca a exigência de um plano de luta consequente para os professores, com uma auscultação rigorosa às bases e total independência de interesses políticos-partidários.”

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E já agora, se ainda não leram, entretenham-se com (mais) esta lapidar crónica de Santanha Castilho: aqui.

Não basta estarmos sujeitos à subjectividade inerente a ser avaliados pelos nossos pares. A questão das cotas continua a minar o pouco que resta da credibilidade deste sistema dito de avaliação docente. Então não é que um professor, por pertencer a uma qualquer comissão de avaliação ou por ser avaliador tem uma quota específica? Isto para não falar nos membros da direcção… Foi um fartar vilanagem de Muito Bons, mesmo para aqueles que não tiveram aulas assistidas e portanto não foram avaliados na componente científico-pedagógica. Haja coragem para combater isto porque vergonha não há nenhuma!

Descarregar o cartaz aqui

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Acho que está em boa altura de fazer uma retrospectiva – visualmente falando – daquilo que foi uma luta sem paralelo dos professores pela sobrevivência da sua dignidade profissional e contra uma certa ideia de escola pública que o governo de José Sócrates teimosamente tentou (tenta ainda) defender. É também para lembrar que esta luta está longe de ter terminado!

Bem hajam!

Protesto Gráfico

©ProtestoGráfico

“Suspender este modelo de avaliação iria causar ainda mais perturbação…”*

*Isabel Alçada, Ministra da Educação, 5 Nov 2009.

Isto é burrice, estratégia ou as duas coisas???

Arregacem as mangas, professores, que vem aí borrasca!

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Dia dezanove de Setembro não vou ficar em casa. Cheguei a pensar ficar quietinho até ao desenlace das eleições. Pensando bem, essa opção que poderia ser justificada pelo desgaste e/ou pela necessária poupança de energia agora que estamos com mais um ano lectivo à porta, não serve. Entendo que muito do que aconteceu nesta legislatura em matéria de achincalhamento da classe docente e destruição de uma certa ideia de escola pública aconteceu justamente devido ao nosso comodismo e a uma confiança excessiva na reactividade dos sindicados. (mais…)

AdeusMilu

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Estive lá e foi bonito. Apesar das reservas e das incertezas, 60, 70, 80 mil professores entenderam unir-se para este protesto final antes do termo da legislatura e do respectivo mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, mandato esse que ficará para a história da educação portuguesa como o mais negro do pós-25 de Abril. Esperemos que os partidos da oposição tirem daqui as suas ilações e definam com clareza o que pensam fazer para reverter o caos humano, pedagógico e legislativo em que transformaram o ensino público de Portugal. Isto na perspectiva de impossibilidade da obtenção da maioria absoluta por parte do PS, o que tudo indica, virá (felizmente) a acontecer.

Deixo aqui a transcrição do texto de Santana Castilho publicado no Jornal Público que apesar de ter alguns dias e ter já sido divulgado em vários blogues, foi na minha opinião, quem melhor fez o “elogio fúnebre” à “ministra-que ainda-o-é-mas-não-por-muito-mais-tempo…

Carta aberta à ministra da Educação
13.05.2009, Santana Castilho

“O Ministério da Educação devia passar a chamar-se Ministério da Certificação e das Novas Oportunidades

Senhora ministra: Dentro de poucos meses partirá para um exílio dourado. Obviamente que partirá, seja qual for o resultado das eleições. É tempo de lhe dizer, com frontalidade, e antes que o ruído da campanha apague o meu grito de revolta, como a considero responsável por quatro anos de Educação queimada. Este qualificativo metafórico ganhará realismo à medida que aqui for invocando os falhanços mais censuráveis, alguns apenas, dos muitos que fazem de si, politicamente, uma predadora do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçada, tenha a coragem de marcar o contraditório, cara a cara, onde e quando quiser, perante professores, alunos, pais e demais cidadãos votantes. Por uma vez, sairia do ciclo propagandístico em que sempre se moveu.
A senhora ministra falhou estrondosamente com o sistema de avaliação do desempenho dos professores, a vertente mais mediática da enormidade a que chamou estatuto de carreira. A sua intenção não foi, nunca, como lhe competia, dignificar o exercício de uma profissão estratégica para o desenvolvimento do país. A senhora anda há um ano a confundir classificação do desempenho com avaliação do desempenho e demonstrou ignorar o que de mais sério existe na produção teórica sobre a matéria. Permitiu e alimentou mentiras inomináveis sobre o problema. O saldo é claro e incontestável: da própria aberração técnica que os seus especialistas pariram nada resta. Terá os professores classificados com bom, pelo menos, exactamente o que criticava quando começou a sua cruzada, ridiculamente fundamentalista. A que preço? Coisa difícil de quantificar. Mas os cacos são visíveis e vão demorar anos a reunir: o maior êxodo de todos os tempos de profissionais altamente qualificados; a maior fraude de que há memória quando machadou com critérios de vergonha carreiras de uma vida; o retorno à filosofia de que o trabalho é obrigação de escravos. Não tem vergonha desta coroa? Não tem vergonha de vexar uma classe com a obrigação de entregar objectivos individuais no fim do ano, como se ele estivesse a começar? Acha sério mascarar de rigor a farsa que promoveu?
A senhora ministra falhou quando fez aprovar um modelo de gestão de escolas, castrador e centralizador. Não repito o que então aqui escrevi. Ainda os directores estão a chegar aos postos de obediência e já os factos me dão razão. Invoco o caso do Agrupamento de Santo Onofre, onde gestores competentes e legalmente providos foram vergonhosamente substituídos; lembro-lhe a história canalha de Fafe, prenúncio caricato de onde nos levará a municipalização e a entrega da gestão aos arrivistas partidários; confronto-a com o silêncio cúmplice sobre a suspensão arbitrária de um professor em Tavira, porque o filho do autarca se magoou numa actividade escolar, sem qualquer culpa do docente. Dá-se conta que não tem qualquer autoridade moral para falar de autonomia das escolas?
A senhora ministra falhou quando promoveu a escola que não ensina. Mostre ao país, a senhora que tanto ama as estatísticas, quanto tempo se leva hoje para fazer, de uma só tirada, os 7.º, 8.º e 9.º anos e, depois, os 10.º, 11.º e 12.º. E sustente, perante quem conhece, a pantomina que se desenvolveu à volta do politicamente correcto conceito de escola inclusiva, para lá manter, a qualquer preço, em ridículas formações pseudoprofissionais, os que antes sujavam as estatísticas que a senhora oportunistamente branqueou. Ouse vir discutir publicamente a demagogia de prolongar até aos 18 anos a obrigatoriedade de frequentar a escola, no contexto do país real e quando estamos ainda tão longe de cumprir o actual período compulsivo, duas décadas volvidas sobre o respectivo anúncio. Do mesmo passo, esclareça (ainda que aqui a responsabilidade seja partilhada) que diferenças existem entre o anterior exame ad hoc e o pós-moderno “mais de 23″, para entrar na universidade. Compreendo, portanto, que no pastel kafkiano a que chamou estatuto de carreira não se encontre o vocábulo ensinar. Lá nisso, reconheço, foi coerente. Só lhe faltou mudar o nome à casa onde pontifica. Devia chamar-se agora, com propriedade, Ministério da Certificação e das Novas Oportunidades. Não tem remorsos?
A senhora ministra falhou rotundamente quando promoveu um estatuto do aluno que não ajuda a lidar com a indisciplina generalizada; quando deu aos alunos o sinal de que podem passar sem pôr os pés nas aulas e, pasme-se, manifestou a vontade de proibir as reprovações, segundo a senhora, coisa retrógrada. A senhora ministra falhou quando defendeu uma sociedade onde os pais não têm tempo para estar com os filhos. A senhora ministra falhou quando permitiu, repetidas vezes, que crianças fossem usadas em actividades de mera propaganda política. A senhora ministra falhou quando encomendou e pagou a peso de ouro trabalhos que não foram executados, para além de serem de utilidade mais que duvidosa. Voltou a falhar quando deslocou para os tribunais o local de interlocução com os seus parceiros sociais, consciente de que o Direito nem sempre tem que ver com a Justiça. Falhou também quando baniu clássicos da nossa literatura e permitiu a redução da Filosofia. Falhou ainda quando manipulou estatisticamente os resultados escolares e exibiu os que não se verificaram. Falhou igualmente quando votou ao abandono crianças deficientes e professores nas vascas da morte. Falhou, por fim, quando se deixou implicar no logro do falso relatório da OCDE e no deslumbramento saloio do Magalhães.

Por tudo isto e muito mais que aqui não cabe, a senhora é, em minha opinião, uma ministra falhada. Parte sem que eu por si nutra qualquer espécie de respeito político ou intelectual.”
In Público

 

30Maio2009

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Vão reservando na vossa agenda. Existiriam com certeza melhores formas de prosseguir a contestação às indiscritíveis políticas e atitudes desta trupe governamental. Mas deveremos nós professores ficar em casa de braços caídos em lamentação? Diabo… Não!! 

Sábado 30/5, lá estaremos outra vez pelas bandas do Marquês…

Cartaz 30Maio em pdf

 

grevinhas-copy

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Então foi este o resultado da semana de consulta geral aos professores quanto às formas de prosseguimento da luta?

Tudo isto me faz estar plenamente de acordo com a análise do Mário Carneiro no blog O Estado da Educação;

“Os sindicatos de professores que temos são maus. Do meu ponto de vista, são maus porque seguem uma política sindical vinculada aos interesses e às estratégias partidárias. São maus porque, verdadeiramente, nunca acreditam na capacidade e na força daqueles que representam. São maus porque, muitos deles, já sedimentados em anos e anos de rotina sindical, cedem aos interesses da manutenção do statu quo que garante horários privilegiados ou mesmo isenção de horário, que lhes dá acesso a certos meios, contactos, deferências, mordomias e protagonismos que, de outro modo, não teriam.

A combinação destes factores determina que tenhamos um sindicalismo docente que não cumpre as funções para o qual foi criado. Pior: não só não cumpre como acaba por gerar o descrédito nas próprias instituições sindicais. É frequente, por isso, ouvirmos, em relação aos sindicatos, epítetos idênticos àqueles que ouvimos em relação aos políticos. Os sindicalistas, contudo, sentem-se possuídos de uma superioridade moral tal que, pensam eles, os deveria isentar da censura e até mesmo da crítica. É por essa razão que, sempre que são confrontados com o escrutínio de quem deles diverge, reagem como alguém que foi ofendido na honra e, não discutindo os argumentos que sustentam a crítica, optam por apelidar os que os interpelam de: divisionistas, irrealistas, zurzidores ao serviço do Governo e por aí fora (há quem, neste país, se considere sempre possuído do direito da crítica, mas isento do dever de ouvir a objecção alheia – os sindicalistas são disso um exemplo, todavia, bem acompanhados, quer por jornalistas quer por juízes.)

Mas estava eu a dizer que temos maus sindicatos, e isto tem uma consequência objectiva: a resolução dos verdadeiros problemas profissionais, cuja existência é a razão de ser dos próprios sindicatos, é relegada para plano secundário, é esquecida sempre que se atinge um elevado patamar de conflitualidade. Nesses contextos de conflito aberto e radicalizado, predomina sempre aquilo que estrategicamente é mais conveniente ao partido que domina o sindicato x ou y. Sempre foi assim, e este último ano de luta dos professores não fugiu à regra.
Depois de uma primeira manifestação de 100 mil professores, depois uma segunda manifestação de 120 mil professores, depois de duas greves nacionais cuja adesão foi superior a 90%, os sindicatos malbarataram toda esta imensa força – uma força que nunca na história do sindicalismo português uma classe profissional tinha demonstrado possuir e que se manteve viva durante um ano (facto para o qual muito contribuiu a mais que meritória acção dos movimentos independentes de professores).
Foi, certamente, um momento único propiciado por uma relação de causa-efeito difícil de repetir: uma equipa do Ministério da Educação que ultrapassou os limites imagináveis da incompetência – política e técnica – gerou uma gigantesca onda de indignação e de oposição que ninguém tinha suposto ser possível acontecer. E, de facto, não é plausível que o fenómeno venha a repetir-se, pois não é (felizmente) congeminável poder vir a constituir-se, no futuro próximo nem no longínquo, um grupo de secretários de Estado e ministro(a) tão manifestamente incapaz e que, simultaneamente, junte à incapacidade congénita uma inusitada grosseria e arrogância pessoais.
Ora, a gravidade extrema do conflito, atingida em Novembro do ano passado, só deveria ter tido uma saída: a demissão da ministra e a alteração da política educativa. Se a política fosse uma coisa séria e o sindicalismo docente estivesse exclusivamente ao serviço dos professores, só poderia ter sido este o desfecho da situação a que se chegou. Mas não foi. E não foi porquê? Porque não era justo, não era adequado, não era possível que assim tivesse sido? Todos sabemos que era justo, que tinha sido adequado e possível. Mas não aconteceu. Foram razões genuinamente sindicais que impediram que isso acontecesse? Foram razões de salvaguarda das justíssimas reivindicações dos professores? Sabemos que não. E que sabemos mais? Sabemos duas coisas:

1. Que a política não é séria. Que este Governo não é sério. Que este primeiro-ministro não é politicamente sério. Sabemos que este primeiro-ministro colocou o seu orgulho pessoal e a sua arrogância à frente dos verdadeiros interesses do país: recusou-se a fazer uma segunda remodelação governamental, depois de já ter substituído os ministros da Saúde e da Cultura. Apesar dos objectivos malefícios que a ministra da Educação diariamente produzia ao país, José Sócrates e o seu núcleo de conselheiros optaram pela chantagem: ou se negoceava uma trapalhada qualquer que salvasse a face do Governo ou o Governo caia. Não interessava nada o que os alunos, os professores, as escolas, o país ganhariam com a mudança da ministra e da política, interessava apenas manter uma posição intransigente que, em eleições antecipadas, até poderia render frutos;

2. Que, perante isto, os sindicatos optaram por recuar. Porquê? Porque não era do interesse de nenhum partido, em particular daqueles que dominam os principais sindicatos de professores, que o Governo caísse. Calculavam que, eleitoralmente, fosse mau. E como, do ponto de vista eleitoral, não era conveniente que isso acontecesse, hipotecou-se a resolução de um gravíssimo problema profissional, de um gravíssimo problema da Educação e do país aos interesses eleitorais. Os professores foram, uma vez mais, manipulados. O sindicalismo esteve, uma vez mais, ao serviço dos proveitos partidários.

Agora, convocaram uma manifestação para o dia 30 de Maio. Como estamos próximos de eleições, quer-se marcar o ponto e tentar lançar alguma perturbação eleitoral ao PS. Mas, do ponto de vista da nossa luta profissional, esta manifestação, desgarrada, isolada, é para alcançar o quê? É para fazerem com ela o quê? O mesmo que fizeram com as duas manifestações anteriores? Agora, marcaram também uma greve pífia de 90 minutos para o dia 26. Qual é o seu objectivo? Alguém consegue explicar?

Se vou à manifestação? Vou, claro. Apesar dos maus sindicatos que temos, temos algo ainda pior: um péssimo Governo e, em particular, uma ministra da Educação politicamente desprezível. Poderia eu ficar em casa no próximo dia 30? Não poderia.”

Mário Carneiro

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Um amigo pediu-me para fazer mais um crachá. Desta vez com a ressalva “neste” PS. Enfim… Cá está ele. Se bem que já tive oportunidade de lhe dizer que no que me diz respeito, não votaria neste nem em nenhum PS, pelo menos enquanto tiver aquela clientela e enquanto eu me lembrar deste mandato de maioria absoluta. E eu sou daqueles com uma memória muito longa!…

Mais crachás aqui

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Esta situação já deve ser sobejamente conhecida por todos os professores bem informados. Os não tão bem informados, podem ler aqui:

Blog MUP

Blog Pimenta Negra

 

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No Encontro Nacional de Professores em Luta discutiu-se a sugestão do Movimento Mobilização e  Unidade dos Professores, veículada pelo seu coordenador, Ilídio Trindade, de criar um crachá anti-PS, devido às políticas persecutórias que este governo tem levado a cabo face aos professores e, verdade seja dita, a todos os funcionários públicos e trabalhadores em geral. Reafirmou-se nesse encontro a ideia que circula há já algum tempo, de que uma nova maioria absoluta nas próximas legislativas teria consequências (ainda mais) negativas para o país. Alguma comunicação social empolou a história do crachá que é sem dúvida secundário, face às importantes deliberações aprovadas no encontro e que fazem parte do comunicado final. Da parte do professor que sou e que me toca, simpatizo com a ideia do crachá e, por isso, proponho aqui alguns “modelos” para uso e abuso de quem se identificar com a mensagem.

E para que não venha ninguém dizer que estou a ser “instrumentalizado” pelo partido X ou sindicato B, reafirmo aqui a minha confissão de que fui um dos eleitores que contribuiu para esta maioria absoluta, facto pelo qual já pedi, a quem me quis ouvir, as minhas mais sinceras desculpas.

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No dia 14 de Março, movimentos de professores que incluem a APEDE, o MUP, o MEP, o PROMOVA e a CDEP vão promover em Leiria um Encontro Nacional de Professores em Luta. O Encontro decorrerá no Teatro José Lúcio da Silva, na zona central de Leiria, entre as 10 e as 17 horas.

Será uma ocasião para os professores que têm resistido nas escolas se encontrarem e discutirem o rumo que tencionam dar a um combate que é de todos nós.
Precisamos de saber como dar força e orientação à luta judicial que está agora a ter início.
Precisamos de reflectir, em conjunto, sobre as formas de luta a desenvolver até ao final do ano lectivo.
Precisamos de ponderar a melhor forma de recuperar o espírito de unidade entre os professores.
Para isso, CONTAMOS COM A PARTICIPAÇÃO DE TODOS.
Com um abraço,

Mário Machaqueiro (pela Direcção da APEDE)

Cartaz A4 em formato pdf

Cartaz A3 em formato pdf

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Eu sei que andamos todos cansados e que estamos numa espécie de período de “refluxo” no que respeita à defesa da carreira docente e da escola pública. No entanto, penso que esta iniciativa promovida pela Fenprof é original e pode causar grande impacto mediático, se tiver uma boa participação. Os detalhes logísticos deverão ser revelados em breve pela central sindical. 

Lá estarei.

Cartaz em formato pdf para divulgação, aqui

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Pegando na ideia de um colega meu, deixo aqui a sugestão no sentido de se organizarem jantares, almoços ou outros conclaves gastronómicos com vista a reunir, em espírito de unidade e são convívio, todos os que continuam a sua resistência contra esta avaliação e não só. É a meu ver importante reforçar a unidade de todos aqueles que, por exemplo, decidiram contra ameaças e pressões mais ou menos veladas, não entregar os seus objectivos individuais. E o que melhor serve essa causa da unidade que um bom almoço ou jantar na companhia de quem comunga da mesma visão?

Aqui fica a sugestão e, para facilitar as coisas, deixo aqui duas listas de inscrição com cabeçalho em formato A4 (uma para jantar outra para almoço) para que os colegas possam imprimir e proceder às inscrições dos interessados. Era interessante mas irrealista pretender que esta iniciativa tivesse lugar no mesmo dia, a nível nacional; o que interessa é que aconteça, de acordo com o calendário que mais convier aos colegas de cada escola.

Bom apetite!

Para afixar na sala de professores – Almoco

Para afixar na sala de professores – Jantar

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Mais informação aqui

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Entregar os OI´s é PACTUAR com a filosofia por detrás deste modelo de avaliação (com ou sem simplexes) e é também DESISTIR da atitude de resistência e oposição a estas pseudo-reformas, das quais a avaliação é apenas a ponta do iceberg.

No fundo, tudo se resume a uma questão de convicções e muita gente não percebeu ainda que, nesta situação, a coesão é fundamental e tornará (tornaria?) tudo mais fácil. Todos temos posições individuais que é necessário respeitar. É de respeitar inclusivé aqueles que defendem de peito aberto este modelo de avaliação (não entendo mas respeito), quanto mais não seja pela coerência. É no entanto penoso encarar aqueles que assumem uma posição no colectivo e outra diferente no individual. Apesar de tudo, mesmo para estes últimos (refiro-me aos que têm consciência e não àquela pequena mas sempre presente fatia de carreiristas que fazem o jogo de cintura que for preciso para não por em perigo a “vidinha”), entendo que a entrega dos OI´s possa ser um sapo engolido a custo, empurrado pelo medo. Restam aqueles que acham que já engoliram sapos suficientes.

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